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Por quê até hoje os sites têm tão pouca acessibilidade?
Por: Cláudia Martin Nascimento
Postado em: 02 de Fevereiro de 2022
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0 Acessibilidade, Site Acessível, LBI - Lei Brasileira de Inclusão, Vamos Juntos!
Nos últimos anos participei de vários treinamentos e palestras com equipes incríveis de marketing, desenvolvimento web, TI e conteúdo. Uma pergunta muito comum que recebo de muitas pessoas é: por quê os sites não são mais acessíveis? Por quê a acessibilidade não é considerada como deveria?
Já pensei bastante sobre isso porque temos um cenário bastante desanimador considerando que existe uma Lei no Brasil, a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (LBI), que garante esse direito ao cidadão.
Eu tenho o privilégio de trabalhar de perto com pessoas incríveis e que possuem deficiência. E durante o meu trabalho eu percebo o quanto elas sofrem para realizar coisas tão simples na web que as pessoas que possuem todas as suas capacidades físicas em ordem nem imaginam. Muitas vezes obter informações importantes pode ser uma tarefa árdua. Finalizar a compra de um medicamento pode ser impossível para algumas pessoas. Elas sentem uma frustração imensa, um sentimento de incapacidade, de perda de sua autonomia. Mas quando os criadores de ambientes digitais, tais como sites e plataformas, se preocupam com acessibilidade, muitas dessas barreiras desaparecem com pequenas ações ou mudanças. Eu trabalho com acessibilidade web há 9 anos e, apesar de perceber que o cenário está mudando nitidamente, essa mudança de visão ao projetar o trabalho ainda é rara. Por quê?
Fico pensando em como a web se desenvolveu rapidamente, sem controle e como todo esse universo digital foi se construindo ao mesmo tempo em que novas tecnologias, demandas e descobertas iam surgindo. Acredito que um dos motivos importantes para a atual falta de acessibilidade nos ambientes digitais tem sim a ver com a dificuldade de as equipes de desenvolvimento acompanharem a evolução tecnológica, de conhecerem e aprenderem todos os aspectos que envolvem a construção de um site web. Mas isso não justifica a ausência de acessibilidade atual porque a primeira versão das Diretrizes de Acessibilidade para Conteúdo Web é divulgada pelo W3C desde os primórdios da web em 1999.
Eu acredito que o que temos hoje é o resultado de uma grande falta de cultura de acessibilidade em nossa sociedade. Não fomos educados para pensar sobre isso, para considerar todas as pessoas com suas diferenças enquanto realizamos nosso trabalho. As empresas de tecnologia consideram muitos aspectos para criar um site: experiência de usuário, design atraente, estratégias de marketing, adaptabilidade para diversos dispositivos. Mas não consideram a acessibilidade digital como um dos pilares dessa criação.
A falta dessa cultura é em parte decorrente da nossa falta de convívio com pessoas com diferentes necessidades. Quando temos pessoas próximas de nós com alguma deficiência ou acompanhamos uma pessoa idosa em seu dia-a-dia, é mais fácil compreender suas dificuldades, ver as barreiras que encontram, sentir empatia e pensar de forma mais ampla o mundo que vivemos.
Além da falta de conhecimento sobre acessibilidade digital e sua importância, a falta de consciência e empatia em relação às necessidades do outro são grandes responsáveis pela deficiência dos nossos ambientes digitais hoje em dia.
Podemos dizer que o problema está nas instituições que cobram (ou não) os direitos dos cidadãos, nos próprios cidadãos que desconhecem seus direitos ou até no governo que não cumpre suas próprias leis, mas a responsabilidade está nas mãos de todos nós. Precisamos expandir nossas mentes, sentimentos e ações para fazer caber em nossas ideias, projetos e criações todas as pessoas.
Cláudia Martin Nascimento
Mestre em Estética e História da Arte pela USP e Bacharel em Desenho Industrial pela FAAP, tem 21 anos de experiência em webdesign e 9 em acessibilidade digital. Vencedora do Prêmio Nacional de Acessibilidade na Web para Todos@Web, integra o Grupo de Especialistas em Acessibilidade Web do W3C Brasil. Sua biografia foi publicada no Who’s Who in Research da Intellect Books – UK.
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